Como um casamento real na Alemanha deu origem à maior festa da cerveja do mundo (e como ela chegou à América Latina)

  • 20/09/2026
(Foto: Reprodução)
Cerca de 6,5 milhões de visitantes compareceram à Oktoberfest de 2025 ao longo dos 16 dias de duração do evento. Getty Images via BBC Todos os anos, desde 1950, no primeiro sábado depois de 15 de setembro, o prefeito de Munique, a capital da Baviera, na Alemanha, tem um compromisso marcado. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Exatamente ao meio-dia, ele precisa estar na Theresienwiese (Campo de Teresa), uma grande área aberta perto do centro da cidade, em uma tenda, diante de um barril de cerveja e com um pesado martelo de madeira nas mãos. Sua missão é introduzir uma torneira de latão, com a menor quantidade possível de golpes para evitar que a cerveja espirre. Quando consegue, grita "O'zapft is!" (Já está aberta!), e exclama "Auf eine friedliche Wiesn!" (Por uma Oktoberfest em paz!), dando início ao disparo de 12 salvas de canhão a partir da escadaria da monumental estátua da Baviera, a mulher que simboliza a força, o orgulho e a identidade da região. O som dos disparos de canhão é o tiro de largada do maior festival folclórico do mundo. Mais de seis milhões de pessoas chegam de todos os cantos do planeta para celebrar as tradições bávaras. Muitos dos presentes, moradores ou não, usam os trajes típicos daquela região alpina. Os homens usam lederhosen, calças curtas de couro, decoradas com bordados e presas por suspensórios; as mulheres usam dirndls, uma blusa branca, um corpete justo e um avental cujo laço revela sua situação amorosa: amarrado à esquerda significa que é solteira, e à direita, que o coração já está ocupado. Durante os 16 ou 18 dias de duração do evento, a Theresienwiese se transforma em um gigantesco parque de diversões, com carrosséis e montanhas-russas. Mas a verdadeira atração são seis enormes tendas. Nelas, são servidos rios de cerveja, uma quantidade suficiente para encher quase 3 piscinas olímpicas, frequentemente acompanhada por um dos mais de 1,2 milhão de brezn, enormes pretzels bávaros assados durante o festival. Tudo é grande, abundante, barulhento e alegre, e tudo começou há mais de dois séculos, com outra festa popular exuberante, embora diferente, que não aconteceu em setembro nem, estritamente falando, na Alemanha, pois ainda faltavam seis décadas para que ela existisse como país. Munique abre Oktoberfest com muito sol, cerveja e IA antiaglomeração Até Kim Kardashian visitou a Oktoberfest em 2010, quando usou um dirndl. Getty Images via BBC Um casamento Em 1809, a inteligente e bela princesa Teresa de Saxe-Hildburghausen figurava na lista de candidatas a esposa de Napoleão Bonaparte, que procurava uma mulher de sangue real. Quase toda a Europa estava sob o controle ou a influência do imperador francês. A Alemanha não existia como um país unificado; era um mosaico de pequenos reinos e ducados. Luís, o príncipe herdeiro do recém-proclamado reino da Baviera, sentia uma rejeição visceral à imposição cultural e militar francesa e era um dos grandes promotores do incipiente nacionalismo cultural germânico: o sonho de uma identidade compartilhada para além das fronteiras. Assim, viajou para conhecer Teresa e pediu sua mão quase imediatamente: uma união com uma princesa de um ducado germânico, em plena guerra napoleônica, era uma jogada de mestre. "Eu me caso sem paixão, já que isso é mais vantajoso para o futuro", escreveu à sua irmã, a princesa Carolina Augusta da Baviera. A falta de amor não era incomum nos casamentos reais. O insólito foi a forma como o casamento foi celebrado. Em vez de uma cerimônia a portas fechadas com a aristocracia, convidaram o povo para uma festa descomunal de 5 dias, com a cidade iluminada, ópera e baile gratuitos, mesas com comida e cerveja custeadas pelo rei em praças e tavernas. Houve até desfiles infantis com trajes típicos de regiões recém-anexadas ao reino, como a Francônia e a Suábia, pois a coroa bávara queria mais do que uma festa. Segundo vários historiadores, a celebração foi planejada para que comunidades culturalmente distintas se percebessem como uma única nação. A celebração culminou em 17 de outubro com uma corrida de cavalos em um campo fora das muralhas da cidade, à qual compareceram cerca de 40 mil pessoas. Não parece muito em comparação com os milhões que chegam hoje ao mesmo local, até que se leva em conta que, segundo o Serviço de Estatística da Cidade de Munique, em 1810 a cidade tinha apenas 40.638 habitantes. O sucesso foi tamanho que o rei decidiu batizar aquele campo em homenagem à sua nora. O local passou a se chamar Theresienwiese. E a festa, realizada originalmente em outubro, ficou conhecida como Oktoberfest. Apresentação de cavalos e gado na primeira edição da Oktoberfest, uma celebração muito diferente da atual. Getty Images via BBC Quando a festa foi repetida no ano seguinte, houve uma exposição agrícola, algo que continua sendo feito hoje a cada três anos; as primeiras barracas de cerveja e o primeiro carrossel chegaram em 1818. E, em 1872, depois de ouvir reclamações sobre o clima, as autoridades decidiram realizar o festival em setembro em vez de outubro, quando os dias são mais curtos, chuvosos e as temperaturas, menos agradáveis. Mas pouco mais de um século depois daquele casamento, em 1914, a festa seria suspensa; quatro anos depois, a monarquia bávara deixaria de existir. Dois parênteses Durante os quatro anos que durou a Primeira Guerra Mundial, a Oktoberfest foi completamente cancelada. Não havia suprimentos, nem cevada para maltagem, nem ânimo para festas. O e ficou vazio de atrações. A essa altura, a Alemanha como Estado-nação moderno já havia sido fundada. Foi em 1871, como uma monarquia constitucional e imperial governada por um Kaiser (o rei da Prússia). Mas, em 1918, justamente quando a guerra terminava, a monarquia caiu. O último rei, Luís III da Baviera, fugiu, e o reino se transformou em uma república. A vontade de reviver a Oktoberfest persistiu, mas o país estava mergulhado em uma profunda crise do pós-guerra que obrigou a organizar uma versão reduzida chamada Kleineres Herbstfest (Pequena Festa de Outono), até 1921, quando o nome original foi retomado e as grandes tendas, a música de sopros e a cerveja voltaram à Theresienwiese. Com exceção de 1923, quando a pior crise de hiperinflação já sofrida pelo país obrigou ao cancelamento da festa, a tradição continuou alegremente, até Adolf Hitler chegar ao poder em 1933. Naquele mesmo ano, foi proibido que judeus trabalhassem no festival. Cinco anos mais tarde, após a anexação da Áustria e dos Sudetos, o regime rebatizou o festival como "Großdeutsches Volksfest" — a festa popular da Grande Alemanha — e o utilizou como vitrine de uma identidade étnica que excluía ativamente aqueles que não se encaixavam nela. A cerveja e o folclore, que um século antes haviam servido para unir os bávaros diante de um invasor estrangeiro, agora serviam para traçar uma linha entre aqueles que pertenciam à nação e os que não pertenciam. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, o festival foi suspenso. Não houve Oktoberfest entre 1939 e 1945. A associação de Munique com o nazismo era difícil de apagar. Getty Images via BBC Quando a guerra terminou, Munique era uma cidade em ruínas que carregava o estigma de ter sido a "capital do movimento" nazista, e a Baviera, um território ocupado. Como havia acontecido depois da Grande Guerra, durante três anos cinzentos, o festival sobreviveu com dificuldade como a Feira de Outono, que ocupava apenas um terço do espaço habitual da Theresienwiese e estava sujeita a severas restrições. A tradicional cerveja de alto teor alcoólico da Oktoberfest estava proibida, porque o governo militar americano permitia apenas a produção de cerveja fraca para não desviar cevada do pão; os alimentos precisavam ser adquiridos por meio de cartões de racionamento — devido à falta de fornecimento de energia elétrica, a feira fechava às 19h. Somente em 1949 a cerveja de teor alcoólico normal foi novamente autorizada, e naquele mesmo ano a Oktoberfest recuperou seu nome e voltou a ser realizada após uma década de ausência. Durante aqueles dias de setembro, mais do que os discursos políticos, foram os lederhosen, os dirndls, a gastronomia tradicional e os acordes das bandas folclóricas que ajudaram uma Baviera desmoralizada a começar a cerzir o tecido de sua sociedade. O ritual do "O'zapft is!" como o conhecemos hoje — aquele do prefeito, do martelo, do grito — foi estabelecido em 1950, quando o então prefeito Thomas Wimmer precisou de 19 golpes para abrir o primeiro barril. Desde então, cada prefeito tenta superar essa marca. Também desde aquele ano, espera-se o sinal dos canhões para começar a servir o primeiro litro de cerveja em um maßkrug, aquelas enormes canecas de vidro grosso com covinhas que pesam 1,3 quilo vazias e 2,3 quilos cheias. Quando o festival termina hoje em dia, terão sido cheias entre 6,5 milhões e 7,5 milhões de maßkrug com cervejas produzidas especialmente para o evento pelas únicas seis marcas autorizadas a servir no festival, pois elas são produzidas de acordo com a lei de pureza e dentro dos limites urbanos da cidade de Munique. Em terras sul-americanas A Oktoberfest também criou raízes do outro lado do oceano, pelas mãos de comunidades de imigrantes alemães. Blumenau, cidade de Santa Catarina fundada em 1850, é conhecida nacionalmente por sua forte herança cultural alemã e por sediar a maior Oktoberfest das Américas. Mas lá o festival quase não chegou a nascer: estava planejado para 1983, mas uma inundação catastrófica do rio Itajaí-Açu, que devastou a região e deixou 49 mortos, obrigou seu adiamento. No ano seguinte, quando a cidade se preparava para celebrá-lo, uma segunda enchente voltou a atingi-la. Ainda assim, as autoridades decidiram seguir em frente: em outubro de 1984 foi realizada a primeira edição, como uma forma deliberada de elevar o ânimo e reativar a economia local. Foram 102 mil pessoas que brindaram com 103 mil litros de cerveja. Hoje é a segunda maior Oktoberfest do planeta, depois da de Munique. Um carro de cerveja na Oktoberfest de Blumenau; a cidade foi fundada por Hermann Bruno Otto Blumenau e outros 17 imigrantes alemães. Getty Images via BBC Mas, nas montanhas do estado de Aragua, na Venezuela, há uma versão do festival ainda mais intacta. Fundada em 1843 por quase 400 colonos vindos da região de Kaiserstuhl — então parte do Grão-Ducado de Baden —, a Colônia Tovar permaneceu praticamente isolada do restante do mundo por um século devido à geografia da região. Aqui, a herança não é bávara, mas do sudoeste da Alemanha. Seus habitantes ainda preservam a arquitetura enxaimel, a gastronomia da Floresta Negra e, em alguns casos, o alemão coloniero, um dialeto alemânico único no mundo. Realizada desde o fim dos anos 1970, a Oktoberfest da cidade se destaca pela preservação das tradições, com cervejas artesanais que dão continuidade ao legado da família Benitz, responsável por instalar ali a primeira cervejaria do país em meados do século 19. Enquanto isso, no sul do Chile, a tradição cervejeira está ligada à história do próprio Estado. Em 1845, o governo promulgou a Lei de Imigração Seletiva com o objetivo de povoar e desenvolver economicamente as terras austrais. Milhares de famílias alemãs se estabeleceram na região do lago Llanquihue e, em 1984, seus descendentes organizaram a primeira Bierfest de Llanquihue no Clube Ginástico Alemão da cidade para preservar seus costumes. Diferentemente das feiras comerciais modernas, o evento mantém um forte caráter familiar e comunitário. As receitas tradicionais de salsichas e confeitaria (Kuchen) são preparadas pelos tataranetos daqueles pioneiros agrícolas. Do outro lado da Cordilheira dos Andes, em uma cidade de Córdoba fundada nos anos 1930 por imigrantes alpinos, a festa da cerveja já era realizada havia quase duas décadas. Em 1957, os moradores de Villa General Belgrano, na Argentina, depois de um grande esforço comunitário, finalmente conseguiram pavimentar a rua principal. Para comemorar, organizaram uma festa com uma orquestra e compartilharam um barril de cerveja na praça central. A festa fez tanto sucesso que foi repetida e, desde 1963, é realizada ininterruptamente todo mês de outubro como a Festa Nacional da Cerveja. Além da música centro-europeia e dos trajes tiroleses, o festival inclui, entre outras atrações curiosas, uma singular procissão de cães da raça dachshund.

FONTE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/09/20/como-um-casamento-real-na-alemanha-deu-origem-a-maior-festa-da-cerveja-do-mundo-e-como-ela-chegou-a-america-latina.ghtml


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